Sêmen – Segunda parte – Solidão

III

Chega a hora, deixe a luz entrar, sorria. Tempestade lá fora é a mulher que se resguarda para tempos difíceis. Um café antes do cinema, soda italiana antes do beijo. Eu sei, ela, D. precisa de tempo, confortar-se antes do próximo evento. É sempre hora de sorrir, deixar a luz entrar. Ainda que estejamos por noites e noites em tavernas escuras. Tem luz que vem de algum olhar…

O címbalo indiano está perto. Ela não recordará de mim durante sua escolhida solidão. É necessário assim. O importante é ela voltar a dar passos firmes no chão. Não temer o próprio vôo.  A tal mulher deste milênio, que cospe na cara dos rudes e mergulha sem frescura no que quer. Do tal contexto social, da tal filosofia do boteco, da tal luz que adentra o teto, da vil hipocrisia servil, da crua necessidade de estar bem consigo e nada mais. Escolhida solidão, pois, precisamos cuidar de nós mesmos. Ela é assim tão gentil, tão… tempestade é ficar sem aquele belo sorriso.

Por Eliéser Baco

Solitária por escolha própria, essa mulher aguarda sem pressa o seu momento, sem pensar no momento histórico. Ela está desperta e sabe como agir sobriamente (ou aguerridamente, da forma própria das mulheres). No alvorecer do Milênio, nada mais gentil que uma pessoa vivendo sua vida da forma que lhe convém. Ao homem, resta compreender e aceitar sua nova posição dentro da estrutura social. A ele, talvez seja mais difícil conviver com essa solidão forçada. Ou com as novas regras, ditadas por uma força maior que a bruta. A força da sedução… é Lilith, potência criadora, acordando das brumas.

Cena de cinema, o beijo no ápice do conto, a história universal que circula estonteantemente em nossos corações, um antigo clássico em nosso DNA. Um novo paradigma se forma diante de nossos olhos torpes e confusos. Assim dizia Lilith: “por que devo deitar-me embaixo de ti?” Essa Deusa desmonta a estrutura patriarcal e vive nos corações femininos de todo o planeta azul, poderosa como jamais fora. A Evolução escolhe os mais capacitados.

                                                                                                                 Por Fabiano de Queiroz

Sêmen – Segunda parte – Solidão

II

Dos aspectos relevantes das buscas impostas socialmente, quis me livrar de todos. Tudo e todos; ainda que quisesse me assombrar apenas com meu olhar e pensamentos, a mulher era necessária, cúmplice que não se pode esquecer. Cinco anos da escolhida solidão contemporânea. Ainda que cartas e beijos precisassem ser trocados.

A pensar na força do argumento que vive tão forte hoje, e que mantém o foco de não compartilharmos mais do que linhas, febre e orgasmos esparsos. Receios de quem já cheirou um pão amassado por algum ser deveras estranho, que se aproveitou de alguma ternura existente para transpassar a lança quase fatídica.

E a mulher que deveria zelar por sua própria força, se entrega ao ouro dos outros, tão somente pelo ouro e garantias de algo ameno, sombra do seu olhar de vida. Seria a desforra por séculos de submissão tal atitude da mulher?  Se tivessem escrito que não foi expulsa do tal paraíso, que ela acolheria o sêmen e transformaria tudo em poemas e vida, teria sido melhor?

Por Eliéser Baco

Se é vingança, se é força, se é revolução. Pouco importa. A vida é cíclica (cítrica?), temos fases e momentos históricos. A mulher ainda não é tão poderosa quanto o homem, seu maior algoz, mas vivemos uma era ágil, veloz, atroz, de lutas, guerras e violência midiática extrema, de informação e contra-informação, deformação e doce formação.

Esse contexto social do presente momento, do poder das tecnologias de comunicação, transforma as relações sociais, tornando-as tanto mais frívolas quanto mais dispersas, ao tempo em que nos conhecemos mais e mais. É essa ciranda mágica da comunicação instantânea que fortalece movimentos os mais diversos, e a segregação é contida pela virulência de filosofias diversas. Direitos. Humanos.

Esta é a mulher do Terceiro Milênio, moldada desde o final do século passado. Mais forte, mais informada, mais poderosa. E muito mais confiante. É essa confiança que aflige e desespera o sexo masculino, fragilizado em sua essência. Na solidão de seu mundo interno, o homem não se faz presente e reage com violência e falta de inteligência.

Por Fabiano de Queiroz

Sêmen – Segunda parte – Solidão

I

Não poderia esperar tal decisão. Sim ou não, cumplicidade ou solidão? É medieval tão questão. Pré-colombiana. Passos curtos em direção qualquer, mas rumo ao próximo, que motivo teria?

Eu não poderia esperar tal decisão daquela mulher, K. Atirei-me ao escuro das conquistas por moças, coxas alheias; sim de muitas, não de algumas, cumplicidade e solidão. Frise isto, por favor: E solidão. É medieval tal questão, passos curtos em direção qualquer enquanto ela não se decidia por mim ou pelo ouro dos outros. Rumo ao próximo enquanto eu estava lá, nos escombros das futuras construções, esperando-a; que motivo teria para não aguardar?

O fato, por mais simples que pareça e que eu mereça, é que nos momentos derradeiros ela adentra a porta, não a mulher que eu aguardava, de cinta-liga e olhar lânguido, tampouco a donzela pálida de foice em mãos e vermelhos olhos; adentra a porta sem ritmo, por vezes até descompassada, a sereníssima que enlouquece, ela caríssimos, derradeira e despedaçante, solidão. Cúmplice de meus motivos mais estranhos, mais verdadeiros.

                                                                                              Por Eliéser Baco

Ela mata. Ela seduz, joga, escorraça, destroça, amordaça. E mata. Impiedosamente. Sem sangue. Sem nexo. Apenas acaba com toda e qualquer esperança na vida. A mulher tem um poder qualquer coisa de hipnótico, que tranca o homem dentro de sua alma, sem saída nem chance de perdão. Todo o que se faz é chorar e implorar pela chance impossível.

Creio na força devastadora desse tsunami humano chamado mulher. Obra máxima da Força Criadora, infinitamente superior ao homem, que jaz debaixo de sua mediocridade, impotente diante de tamanha lassidão. Inevitável é o sentimento de ausência, um pária entre iguais, onde não consegue o homem controlar seus sentimentos mais intensos, quanto mais a mulher o ignora e humilha.

A mulher muitas vezes é usada e jogada fora, mas quando sabe de seu poder, dificilmente deixa de usá-lo. O homem é destruído duplamente – pela força natural da mulher e pelo sentimento de inferioridade de quem historicamente se fez passiva. Essa passividade era a solidão da mulher e a tranquilidade do bicho-homem.

                                   Por Fabiano de Queiroz

Origens Vertigens

Não se lembra certo daquele dia em que saíra sanguinolenta e chorosa por entre as pernas de sua mãe. Não se lembra que lugar de terra gretada e depois vermelha esteve em suas primeiras incursões nesse mundo, a que alguns adjetivam de todos, e que, no entanto, é o mundo de cada um, o mundinho das ‘(im)percepções’.  Talvez fosse esse momento de origem o ponto em que tudo se fundou, nas solidões e fraternidades.  O ninho quente e aquoso, depois revelado em ar sem fim a forçar os pulmões e o diafragma ainda imaturos. As primeiras sensações desavisadas e os avisos de aprender para sobreviver. E tudo era inóspito se não fosse por essa eterna companhia, a fraterna maternidade. E ainda hoje a pergunta ecoa pela verdadeira fraternidade em uma enormidade de passagens por si e pelo outro. Onde estará essa amiga faminta, fraternidade, que só existe pelo outro e se extingue numa vertigem, num escape de amar?

Keila Costa

Aqui terminamos o primeiro arco da mini-saga Sêmen. O primeiro arco, denominado Origens, é finalizado. O Rei e O Mensageiro saem de cena por um tempo, e teremos um interstício de duas semanas antes de começar a publicação do segundo arco, “Solidão”. Antes, uma novidade. A partir desse capítulo, temos uma nova escritora, Keila Costa, que irá finalizar os textos, sempre após o sétimo capítulo de cada Parte. Espero que nossos poucos leitores gostem e continuem acompanhando. 🙂

ILUSÃO COMPARTILHADA

VII

Partimos nós, em intensidade, rumo aos mais distantes pensamentos sobre o que nos faz humanos, sobre os processos cognitivos e as faculdades mentais, essas que elaboram atrocidades, desvarios e desmandos. Humanos somos, e por isso, selvagens mais que tudo, pois, a consciência nos permite elevar a níveis inimagináveis o pior do homem. Nossa indisfarçável incompetência em dividir o mesmo espaço sequer nos permite criar uma verdadeira unidade, pois que nossas diferenças nos oprimem e separam. Toda união total é mera ilusão. Será pessimismo? Venerável, não há espaço para todos, e os conflitos são intermináveis. Se há saída para o círculo vicioso, mostre-nos, como Venerável Líder de um povo desencontrado.

Por Fabiano de Queiroz

Caríssimo, embora discordemos opiniões, manifestamos continuado diálogo. De ilusão sempre fomos cercados. Da brusca caminhada em direção aos pólos, aos ares, às pernas de uma Srta de rústicos desejos; o que se compreende por fraternidade não existe de fato, somente a meu ver, e em parte, naquela união de homens com seus esquadros e templos. Se não compreendemos nosso vizinho, na mesa da taverna, compreenderemos o que não entende nosso dialeto? Ou o estrangeiro, que costura sua vida na esperança, e é escravo em nossas terras? Navegue até aqui, repartirei o néctar sagrado, abrirei suas opiniões nas antigas vinhas, zelarei por sua história sem fé cega, em tempestades necessárias.

Por Eliéser Baco

ÓPIO E CIRCO

VI

Inoperância. É parte do homem servir, escravizar-se e aceitar passivamente o que vem dos círculos mais altos. O poder é para poucos. E desses poucos, menos ainda os que possuem alegria e verdade no coração. O poder depende, no mais das vezes, de uma personalidade psicótica, sem a qual é muito difícil manter algum controle, sobre o povo, e sobre as próprias emoções. Poucos aguentariam tamanha pressão. Nenhum líder subsiste sem Maquiavel. Às vezes tenho a estranha sensação de que o povo é manipulado de forma quase consciente, e se compraz disso. Será possível? É possível escravizar-se instintivamente? Daí vem a grande força dos ditadores – a capacidade de dominar e subjugar, através do carisma, dos favores, das políticas populistas, do conformismo em nome de um grão de café. A simplicidade é o limite do povo. Pra que mais?

Por Fabiano de Queiroz

Havia um homem, navegou pelos estreitos dos mares, percebeu que quanto mais difícil a empreitada, lançar navio às ondas mais assustadoras, mais vivo se sentia. Não esperava ajuda senão dos homens que ali com ele poderiam se perder e tomava posse de suas coragens, dando engrenagem para eles se superarem. Naturalmente sábio. Quem não confia em si e depende da colaboração do chamado destino ou dos homens do alto só podem ver o mar intenso da vida de longe. Dificuldades, trajetos, todos temos. Acomodado o bruto navegador ficaria diante da vida? Quis desbravar o que era necessário para se fortalecer diante dele próprio. Os favores do homem são para pilhar terras e mulheres alheias. O povo quer circo e manteiga. Ainda se manteiga fosse para currar a mulher dos corruptos. E não é. É para serem currados pelos renomados.

Por Eliéser Baco

ASAS BRANCAS

V

Jamais mencionei bondade nesses corações mundanos, tais que apenas subexistem, como zumbis de cérebros derretidos pela inoperância que os condena. Sem comiseração, sinto apenas o nada absoluto em relação à turba ensandecida e procrastinada à espera. À espera não sabem sequer de que, pois vivem a esperar e a se lamuriar, sem luta, sem vontade própria. O processo destrutivo encerrado pelas elites surte claro efeito, e não é de outra forma que se garante a governabilidade. O paternalismo canhestro visando as camadas mais pobres torna estas subservientes e obedientes, como carneirinhos enfileirados. As demais camadas, mais ao alto, veem com alívio a eficiência dessa colonização mental. E continuam com suas vidas vazias, medíocres. Não tiro sua razão, caro Rei, nesse caso em especial. Doravante, apenas pela educação, a revolução. Sem ela, toda revolução leva ao canibalismo e nada mais. Rei, o senhor é nada mais que uma peça na engrenagem.

Por Fabiano de Queiroz

            Revolução pacífica nos serve de marola quando o mar necessita de tempestade para sobressair-se no panteão da História. Respeito sua opinião caro mensageiro que voa em pombas brancas. Ainda que não concorde o diálogo perspicaz nos dá honra quando em discordâncias. Sou peça ínfima pensam alguns, sou apenas poeira renegada por todos os olhares ternos e os tecidos sacros, os balanços dos ombros ao caminhar na serenidade e as mãos puras ao segurar a fonte dos melhores sonhos. Porém, muitas vezes quando a ganância invade olhos avermelhados do choro faminto a fome dá lugar não ao simples sacio e sim à gula desenfreada e caótica. Quando da escolha por duas vielas, muitos procuram a mim, que nem sou tão maligno. Se fossem verdadeiramente amados anjos não cairiam, Reis como eu não chegariam ao trono por vontade do povo. Não manteriam por tanto tempo rubras vontades pelo nada que optam. Amém?!

Por Eliéser Baco