Arquivo da categoria ‘Sêmen – arco Origens’

Aqui terminamos o primeiro arco da mini-saga Sêmen. O primeiro arco, denominado Origens, é finalizado. O Rei e O Mensageiro saem de cena por um tempo, e teremos um interstício de duas semanas antes de começar a publicação do segundo arco, “Solidão”. Antes, uma novidade. A partir desse capítulo, temos uma nova escritora, Keila Costa, que irá finalizar os textos, sempre após o sétimo capítulo de cada Parte. Espero que nossos poucos leitores gostem e continuem acompanhando. 🙂

ILUSÃO COMPARTILHADA

VII

Partimos nós, em intensidade, rumo aos mais distantes pensamentos sobre o que nos faz humanos, sobre os processos cognitivos e as faculdades mentais, essas que elaboram atrocidades, desvarios e desmandos. Humanos somos, e por isso, selvagens mais que tudo, pois, a consciência nos permite elevar a níveis inimagináveis o pior do homem. Nossa indisfarçável incompetência em dividir o mesmo espaço sequer nos permite criar uma verdadeira unidade, pois que nossas diferenças nos oprimem e separam. Toda união total é mera ilusão. Será pessimismo? Venerável, não há espaço para todos, e os conflitos são intermináveis. Se há saída para o círculo vicioso, mostre-nos, como Venerável Líder de um povo desencontrado.

Por Fabiano de Queiroz

Caríssimo, embora discordemos opiniões, manifestamos continuado diálogo. De ilusão sempre fomos cercados. Da brusca caminhada em direção aos pólos, aos ares, às pernas de uma Srta de rústicos desejos; o que se compreende por fraternidade não existe de fato, somente a meu ver, e em parte, naquela união de homens com seus esquadros e templos. Se não compreendemos nosso vizinho, na mesa da taverna, compreenderemos o que não entende nosso dialeto? Ou o estrangeiro, que costura sua vida na esperança, e é escravo em nossas terras? Navegue até aqui, repartirei o néctar sagrado, abrirei suas opiniões nas antigas vinhas, zelarei por sua história sem fé cega, em tempestades necessárias.

Por Eliéser Baco

ÓPIO E CIRCO

VI

Inoperância. É parte do homem servir, escravizar-se e aceitar passivamente o que vem dos círculos mais altos. O poder é para poucos. E desses poucos, menos ainda os que possuem alegria e verdade no coração. O poder depende, no mais das vezes, de uma personalidade psicótica, sem a qual é muito difícil manter algum controle, sobre o povo, e sobre as próprias emoções. Poucos aguentariam tamanha pressão. Nenhum líder subsiste sem Maquiavel. Às vezes tenho a estranha sensação de que o povo é manipulado de forma quase consciente, e se compraz disso. Será possível? É possível escravizar-se instintivamente? Daí vem a grande força dos ditadores – a capacidade de dominar e subjugar, através do carisma, dos favores, das políticas populistas, do conformismo em nome de um grão de café. A simplicidade é o limite do povo. Pra que mais?

Por Fabiano de Queiroz

Havia um homem, navegou pelos estreitos dos mares, percebeu que quanto mais difícil a empreitada, lançar navio às ondas mais assustadoras, mais vivo se sentia. Não esperava ajuda senão dos homens que ali com ele poderiam se perder e tomava posse de suas coragens, dando engrenagem para eles se superarem. Naturalmente sábio. Quem não confia em si e depende da colaboração do chamado destino ou dos homens do alto só podem ver o mar intenso da vida de longe. Dificuldades, trajetos, todos temos. Acomodado o bruto navegador ficaria diante da vida? Quis desbravar o que era necessário para se fortalecer diante dele próprio. Os favores do homem são para pilhar terras e mulheres alheias. O povo quer circo e manteiga. Ainda se manteiga fosse para currar a mulher dos corruptos. E não é. É para serem currados pelos renomados.

Por Eliéser Baco

ASAS BRANCAS

V

Jamais mencionei bondade nesses corações mundanos, tais que apenas subexistem, como zumbis de cérebros derretidos pela inoperância que os condena. Sem comiseração, sinto apenas o nada absoluto em relação à turba ensandecida e procrastinada à espera. À espera não sabem sequer de que, pois vivem a esperar e a se lamuriar, sem luta, sem vontade própria. O processo destrutivo encerrado pelas elites surte claro efeito, e não é de outra forma que se garante a governabilidade. O paternalismo canhestro visando as camadas mais pobres torna estas subservientes e obedientes, como carneirinhos enfileirados. As demais camadas, mais ao alto, veem com alívio a eficiência dessa colonização mental. E continuam com suas vidas vazias, medíocres. Não tiro sua razão, caro Rei, nesse caso em especial. Doravante, apenas pela educação, a revolução. Sem ela, toda revolução leva ao canibalismo e nada mais. Rei, o senhor é nada mais que uma peça na engrenagem.

Por Fabiano de Queiroz

            Revolução pacífica nos serve de marola quando o mar necessita de tempestade para sobressair-se no panteão da História. Respeito sua opinião caro mensageiro que voa em pombas brancas. Ainda que não concorde o diálogo perspicaz nos dá honra quando em discordâncias. Sou peça ínfima pensam alguns, sou apenas poeira renegada por todos os olhares ternos e os tecidos sacros, os balanços dos ombros ao caminhar na serenidade e as mãos puras ao segurar a fonte dos melhores sonhos. Porém, muitas vezes quando a ganância invade olhos avermelhados do choro faminto a fome dá lugar não ao simples sacio e sim à gula desenfreada e caótica. Quando da escolha por duas vielas, muitos procuram a mim, que nem sou tão maligno. Se fossem verdadeiramente amados anjos não cairiam, Reis como eu não chegariam ao trono por vontade do povo. Não manteriam por tanto tempo rubras vontades pelo nada que optam. Amém?!

Por Eliéser Baco

OPULENTA IGNORÂNCIA

IV

Ilude-se, preclaro Mestre, ao pensar que a riqueza te trará conforto. Aqui, lá, em algum lugar, pagarás pela arrogância real. E o preço pode ser mais doloroso que qualquer punição de origem terrena. Ausência de fé não te ajudará a escapar incólume. As classes subalternas não se regozijam com sua dominância, embora não tenham voz ativa nem postura perene para batalhar contra a realidade. Pois sequer percebem sua condição miserável. O tempo da luta de classes chegará, não sem dor, não sem sangue, não sem conflitos internos. Porém, creia, meu Rei. Esse tempo chegará. E quando isso ocorrer, seu sangue derramará pelos rios e sua alma apodrecerá nos cantos mais recônditos da amargura humana. Vagará eternamente, bestializado pela própria falta de sabedoria, pois, citando Sócrates, sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância.

Por Fabiano de Queiroz

Brindemos. Vários brindes, canções e mais canções por sua sinceridade e visão. Deixa-me contente pelo simples fato de existir caro mensageiro desequilibrado, ou melhor seria escrever: “mais que equilibrado”. Ainda há com quem dialogar incansavelmente até que as nuvens cubram tudo que se chama vida. Citar luta de classes em um lugar que as pessoas fazem prestações para ter um par qualquer coisa que vale um terço de seu salário é querer que eu morra de rir. Quer matar-me mensageiro? De rir, claro. Poema esdrúxulo pra ti: Doze artefatos, olho do rabo, diferencia e dá status. Isso que me diz sobre as pessoas um dia enxergarem melhor tudo a sua volta? Contou-me seus sonhos enraizados na aventura e desventura de viver. Não tente prever que esses humanos são bons de coração, poucos são dignos, poucos.

Por Eliéser Baco

DAQUELA TAL COMPREENSÃO

III

Cena bucólica. O silêncio. Paz. Volta ao útero. Imensidão. Campos abertos. A serra a perder de vista, além-horizonte, apenas sons da Natureza. Sem perturbações morais. Sem ordens imorais. Sem fraquezas emocionais. Apenas a imensidão da alma em harmonia com o universo infinito. Salta aos olhos o distanciamento entre o homem moderno e oprimido e o Maior, a força criativa sem a qual não teríamos sequer consciência de tudo isso. De tudo que nos rodeia e nos permeia. Pouco entendemos de todo esse milagre, a que chamamos milagre talvez por desconhecimento, visto que somos limitados demais, estreitos demais, em nosso microcosmos, de leis físicas previsíveis e formas definidas. Não enxergamos além de nossas possibilidades, não vamos além dos limites. Isso nos torna de tal forma medíocres, que qualquer definição ou comparação torna-se inútil. Apenas deveríamos aceitar essa condição, enquanto não conseguimos compreender o que nos trouxe aqui ou se há sentido em viver, além do próprio viver.

Por Fabiano de Queiroz

Eu sorri ao receber tais linhas, caríssimo. Quase gargalhei ao ler. Tenta forjar escapismo ao principal, teu povo falhou. Não entender o próprio vizinho leva a deixar de entender a comunidade que mora, seu bairro, seu ambiente social, sua cidade etc. A força da Natureza foi sepultada ao dizerem que a Mulher foi quem conciliou a cilada do mal no antigo Éden, que não era mais belo do que o olhar feminino mais sincero que já tiveste. São sim estreitos demais. Não conseguem usar o cérebro corretamente. Cegos que enxergam, mancos que correm. A criatividade ajudou na construção de máquinas destrutivas. O povo de pigmentação escura sofre há séculos por não ter “óleo de pedra” abundantemente. Os indígenas foram execrados e violentados. O que alimenta minhas veias sai de suas atitudes e sentimentos. Usarei o corpo das mulheres de todas as Eras. Pisotearei os filhos esquecidos para morrer. E por ter ouro serei perdoado, serei homenageado.

Por Eliéser Baco

CINZA?

II

Não podemos nos distanciar tanto de nossa natureza. Uma manhã de sol, silenciosa e gelada, oxigena a alma, revivesce os conceitos, dá-nos sentido ao que parece sem vida, cinza, fraco. Nossa força vem de dentro, mas pode vir de fora quando tomamos essa capacidade externa como algo pessoal. Abstração é talvez a maior qualidade de um ser humano, em busca do controle emocional, do autoconhecimento e por que não? até mesmo de nossa espiritualidade. Esta que não remete necessariamente a uma religião, pois dogmas nos afastam da natureza e de nós mesmos. Religiosidade pode trazer uma pretensa paz aparente, mas não uma paz interna, sentida de maneira legítima, como ligação direta com o que nos rodeia, ao mesmo tempo em que nos permite lidar com cada situação de uma forma tranquila. Sentimento interior = meditação, mente vazia, não de sentido, mas de medos e paranoias que nos tiram a vontade de viver, que nos apertam o peito e nos sufocam.

Por Fabiano de Queiroz

Prevalece mensageiro, a vontade de ser uno.  Tenta provar pra si que precisa se fortalecer. Ideais e presunção. Iguala todos como se todos precisassem estar preocupados com o que te deixa revolvido ao cotidiano. Preso em circunstâncias que rebatem sua mente ao que eu tenho para oferecer. Tenta a paz e consegue frases torpes. Tenta a fé e é destituído de parecer convincente pelas atitudes alheias. Funda em seu olhar religião, esquecendo que isso pode não passar de mais um item nos vários da alienação. Não adianta lutar. Fazer cara de choro. Bestificado é o ser que se diz humano. Mata mais do que ajuda. Retrai-se mais do que se expõe. Chora mais por não ter algo do que sorri por ter quase tudo. Inveja o outro pela vulva alheia e se compadece por desgraças no instante inicial. Duvido que encare seu reflexo com todo esse orgulho. Todos querem minha coroa, o fato é que ainda não sabem como tê-la.

Por Eliéser Baco

MISÉRIAS

I

Oprimido, anexado ao ventre materno, sem saída em prisão de fogo, acusado pelo nascimento, pela não-realização de expectativas abstratas e impossíveis. A sociedade oprime. A maternidade castra, desova, infecta e destroça. Não se iluda, caro Rei. A vida não é sua, o controle vem de fora pra dentro, e não há saída. A libertação vem pela dor absoluta. Não há por onde. Migalhas da alma, a força aparente transformada em mediocridade cotidiana. Misérias do espírito. Ilusões corroídas pela amarga realidade. Cadê meu placebo? Meu caro Rei, forçosamente me afasto, tal como Pescador em alto-mar, por dias ou anos, na infinitude placentária de uma vida controlada. Sem forças, sem sonhos, sem poder transformador. Agora, meu caro Rei… não percebemos o quanto idealizamos sem saber que perdemos décadas de vida sendo meros anexos. Não é o fim porque não houve começo. Coroa, ilusão doce, nosso ópio na alma devastada.

Por Fabiano de Queiroz

Sumiu das cédulas monetárias e moedas minha face, caro mensageiro inquieto. Some das páginas incultas e impuras, e ocultas e neutras e outras derradeiras e sem ar nas frases, minha face… Mas não temas, pois, o invólucro que te acaricia é mais do que preciso negociar por tua felicidade comprovadamente exposta na matéria que acumulas. E no sorriso da fêmea que despeja teu sêmen colhe tuas ilusões. E nas ordens financeiras que abarrotam tua gaveta sofre tua manifestação de homem. Minha coroa é o que alimenta a nação, minha coroa cravejada do que as pessoas temem e querem, matam e se desdobram por ter. Não temas, pois, as inundações são cíclicas e sempre estarei aqui, como rei disso tudo. O disparo no ventre da terra; que terra? O andar é rápido, ríspido demais para socorrer quem flagelado navega o olhar por apenas pão e água. Água! Água?

Por Eliéser Baco