Sêmen – Terceira Parte – Poder

I

Toda essa parafernália de linguagem, medida milimetricamente, geometricamente forjada na antiguidade clássica, sofística.  Todos esses embustes de ser o que não se é, por ter tanto, tanto poder, poder sem lastro, desconhecido da sabedoria, com vestes do parecer, retórica. E então hoje tudo não é o que parece ser? Mas hoje, nesse moderno, o império é grotesco no seu irônico desvelo de acreditar piamente no dizer de engano; e os enganados, pobres marionetes consumidas a consumir todos os ditos como objetos de poder a apagar sua própria palavra de força. (Keila)

As metáforas para o poder estão por toda a parte. Nas artes, é tema contínuo, ao lado do romantismo. Mesmo nas histórias românticas, as relações de poder são exploradas. Poder significar ter a possibilidade de exercer determinado domínio sobre outrem. O poder na política é arma venenosa e destrutiva, letal de forma vil; pelo vil metal, mata-se e compra-se. Compram almas, compram vidas, vendem pensamentos e ideologias. (Fabiano)

Uma língua afoita diz mais do que deveria, diz pior, assim como os dentes mordem ao invés da língua bem sugar quando na pressa, quando não controla e não lapida o que propriamente poderia ter sido feito. Bem feito. Este poder, capacidade de fazer algo melhor, por vezes é deixado de lado por egoísmo, puro e excitante egoísmo. E ainda nem chegamos à sala do bem comum; surto comum é o ato de pensar no próprio umbigo, seco, sujo, mareado. (Eliéser) 

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Sobre o Chuva Peregrina

Publicado: agosto 1, 2011 em Mini-saga Sêmen

Pessoal que lê e curte o nosso Chuva… estamos literalmente passando por alguns problemas técnicos, que nos impedem de avançar de maneira mais uniforme rumo aos demais capítulos. No entanto, temos o próximo arco, Poder, concluído. Começarei a publicar ainda nesta semana. O arco seguinte é “Sexo”, e mais adiante, escreveremos “Religião” (já nos preparando para as pedradas que virão, eheh). Comentem, seus comentários são fundamentais para a continuidade do projeto. 🙂

Após ouvir de você tantos descalabros, ponho-me ferrenha a defender-me como K. ou como qualquer outra figura feminina, que antes de desejar os ouros, desejou o ouro maior da cumplicidade, do afeto além do desejo, mas contaminado pelo maior desejo que houvesse.
E qual seria este o desejo, o maior? Essa percepção do outro em si nesse espelho de reconhecer que a muitos pode parecer grotesco ou ameaçador, mas que é a única razão de existir. O não ver o outro como outro, mas como parte de si próprio. E tanto me foi negado esse desejo, que os ouros então vieram fazer companhia por pura solidão de tanto encontro negado.
Se sofres de solidão meu caro é porque não foi raro nesse reflexo de mim mesma, mas se pôs a espelhar-me da maneira enviesada de quem se defende de fantasmas de outrora e desse hoje desatino. Não me culpes por essa natureza maligna, medieval, pois sou somente contradição benévola, vontade de saber-te qual uma cientista, vontade de sentir-te qual pessoa comum.
Keila Costa

Sêmen – Segunda parte – Solidão

VII

Massa coletiva não pensa por ela própria, caríssimo algoz. Vaga devotada. Cortes, costuras, cabelos semelhantes aos plácidos sorrisos que guiam quase todos. Uma prova de atenção é a conversa familiar diante da noite: silêncio incômodo invejando a vida fictícia de outros, olhos presos na luz da telinha por anos e anos e ânus. O que zomba do lado de fora da janela é o louco, o trôpego que olha acima das nuvens para se deliciar com a calcinha que já desce os joelhos da musa. Sujeito esmaecido de afeto adoecido é o caminhar a invadir neuras e consultórios nossos.

Há algo putrefato nas mãos das populações, e é mais que uma canção tola.  O que seria? A solidão conjunta?

Estar só não é amortecer-se diante dos vindouros dias. Reis, musas, loucos, ovelhas humanas, creiam, a solidão perfaz o Criador ao procurar-se em todos nós.  O que gira nas origens, no sêmen, nas guerras, no isolamento sexual? O que teu olhar percebe? O artefato criado para angariar votos, fãs, rebanhos: Solidão.

Por Eliéser Baco

Na inquietação de uma alma lacerada pela Solidão, esta donzela sagaz e amoral, a alma de um povo, a alma feminina. Neste pântano de nebulosidades, onde se enxerga o menos possível, pela saúde mental, pelo desejo sexual, pelas entranhas imortais de um sedutor de mentes e massas. Subjugando povos e indivíduos, buscar-se-á tão somente dominação, status quo mantido. O Homem foi feito para escravizar, embora seja escravo de si mesmo, do tempo, da solidão, das lutas diárias e insípidas por alimentação de um ego esgarçado e corrompido. O Homem foge da solidão sem se dar conta de sua importância e sua força. É na solidão que ele cresce e se percebe como vivente, como algo além de carne, ossos e sangue. Algo dotado de mente, consciência, sonhos e tolos devaneios. São essas tolices que o permitem perfazer o caminho rumo ao Infinito, sem os distúrbios inerentes à vida social dopada dos tempos modernos. Homens e mulheres, unidos pela ausência de suas vidas místicas. Mulheres, gloriosas, o caminho aberto rumo à Nova Terra…

Por Fabiano de Queiroz

Sêmen – Segunda parte – Solidão

VI

Ilumina meu semblante essa brancura mecânica. Do meu olhar a luz que existe é rala. De tudo que posso legitimar a fábula se cala, defronte meus passos sem candura orgânica. Emoção daquele a esperar alguém? Que se aflige nas contemporâneas mazelas? Que aguarda retorno daquela donzela tal “escolhida”? Nada!; tampouco ódio por corrupção ou a solidão acolhida. Metas sem rima, lógica sem estima. No auge da inocência alheia lastimo toda putice subjetiva.

Tradições e superstições são remelas. Ilustro, esclareço que não sou tutelado ao pensar mediano, rasteiro. Ação acima do que seus olhos emocionados rimam. Beba da iguaria, mero ser em patifaria.

Onde está teu mensageiro confidente parco Rei? Currando a Rainha na abadia? Todos os poemas são nulos, vagos, meus bagos são melhores ainda que sujos ou suados. Das canções escritas jogo n’água; moldura da pequena orgia é exemplo da pior selvageria. Sim! Os críticos da arte são assexuados, é de guerra e fome que se faz politicamente o nome. (O Rei acorda estapeado, encara o semblante do algoz)

Por Eliéser Baco

E assim, caminha o mensageiro, distante, enveredando em novas rimas, não mais se sujeitando à Realeza. Busca seu eu, tenta entender seu papel e sua luta. Por que lutas? Não poderia, então, buscar a paz dentro de si? A luta que só faz sentido quando se luta pelo descobrimento do “eu”. Envoltos em estrelas, galáxias e escuridão. Não se enxerga um palmo adiante da mente. Da mente que nos mostra um universo muito diferente e inferior àquele real, o desconhecido absoluto. Desconhece, o mensageiro, as fronteiras, o início, o nosso papel, tão ínfimos que somos. Sozinhos? Não sabemos. Superiores? Queremos crer. Duvidamos. Há muito mais, muito além. De guerras e derrotas agoniza a humanidade. De Reis porcos e mensageiros torpes vive a elite deslumbrada. Logo abaixo, as ovelhas, esperando os segundos, os minutos, os dias. Sem pensar no sentido. Se há lógica em toda criação. Se a sincronia que percebemos é real ou criação de nossa mente, tal como é a fé. A fé cega, fé em Deus, fé na ciência, fé em líderes rapaces.

Por Fabiano de Queiroz

Sêmen – Segunda parte – Solidão

V

Sem mais nada a perder ou ganhar. Pensar no passado para que? Remédios jogados na privada. Não há ansiedade por notícias de ninguém. Não há roupas guardadas ou por guardar. Não há roupas ou utensílios para aporrinhar. Torta na parede a sagrada família. Torta na geladeira que fazia estava. Rum na garganta. Torta sua rua quando olha desse jeito, de ponta cabeça. Se ri. Vassoura vira par de dança as duas da matina, as cinco da tardina. Tardina não existe então ele inventa. Inventa palavras, dores de cabeça para adoçar a vida com tudo que sua solidão representa. Livre. Por quantos anos quiser daqui pra frente.

O livro da cabeceira o faz refletir. Pelado as dez da noite, vinte e duas maneiras de iniciar assuntos de sono com a sombra do passado em sua vida. Pára de sorrir por um instante. Que pode fazer se a vida é mais que as cobranças dos outros por sua vida. Publicidade quer te vender tudo, ele pensa. _Quero comprar minha alma de volta.

Por Eliéser Baco

Duas da matina sob efeito de morfina, as toxinas liberadas após tantos devaneios. Essa solidão é apenas passageira do acaso, sem futuro nem distante. Momentos, reflexão, a força que nos enquadra em determinadas categorias sociais de nada vale quando estamos entre quatro paredes, sem ninguém por perto. Somos quem somos de fato, sem amarras nem náuseas. O ápice da felicidade pode ser o vislumbre de instantes ociosos, onde não se pensa em nada, universo particular, nada além. Ou uma alma para revender…

Já são quatro da madruga. Na noite escura, o silêncio mortal cortado pelas sirenes da polícia em busca de desajustados. Enquadrai-os, mestres da força moderada! Leve-os para que possamos circular livremente com nossa hipocrisia encoleirada. Não penso de forma coesa. Cadê o sentido?? Agora, cinco horas! Mais duas horas, devo estar acordado, e ainda não dormi. Mais vivo do que nunca, leve como sempre. Seis, o sol nascendo, a neblina impedindo a visão, abro a janela, sinto o ar, respiro, fecho a janela, volto, deito e durmo profundamente…

Por Fabiano de Queiroz

Sêmen – Segunda parte – Solidão

IV

Durabilidade das dúvidas que cercam outros não importa. Toda rotina desencadeia certezas, sorrisos sem clareza, ingrediente a mais no labirinto próprio. Essas labaredas de pensamentos,cada item nos serve, está de acordo com nossa proposta de vida,  conseguimos nos impor de nosso interior ao mundo. Que bela ressaca de palavras. E nem cai o cálice das mãos, pois, pesado está, pesado de solidão, nem mais leituras agüentaria dos poetas de Londres, Istambul, Curitiba. O que queima os olhos é mais que poluição; o que queima a alma é mais que dos outros a corrupção. A mulher prefere o sêmen embotado do cinza de qualquer um ao companheiro pobre de ostentação. Pobre ostentação, rica poluição e cálice de solidão. E bebe tão sofregamente a água da chuva que rodopia febrilmente, por saber que todos que passam de mãos dadas ou não, tem aquele nó no peito vez por outra, por não saber deixar de lado a hipocrisia, malfadadas vias, de complexos, de medos, da busca por algo que está no próprio olhar.

Por Eliéser Baco

Palavras torpes, frases mudas, na noite escura, onde brilha um cantador. Que faz uso das palavras e invade o silêncio, com seu ressoar magnífico, o dedilhado mágico, o dom mais profundo. Na busca do reconhecimento e do amor, uma encruzilhada, um blues, um chapéu e um violão. A perfeição técnica no apego aos bens imateriais. Na senda do sucesso pessoal, um preço altíssimo a pagar. Até onde tudo vale? Justificam-se os meios, para um fim prazeroso e fugaz, mesmo que ao fim e ao largo, tudo desabe e se eternize em destruição? Ele sabe que está chegando ao fim, quando ela, sua amada, sua conquista, sua dívida, diz: querido, onde você estava à noite passada? Sim, eu disse baby, onde você estava ontem à noite? Porque você tem o cabelo todo emaranhado. E não está falando direito, onde você estava ontem à noite?* E ele, melancólico, apenas suspira… eu estou parado na encruzilhada. Acredite, eu estou afundando.** E para o fundo foi, sem ninguém ver. Porém, para a posteridade ficou.

* 32-20 Blues (Robert Johnson)

** Cross Road Blues (Robert Johnson)

Por Fabiano de Queiroz